O câncer de estômago tem uma característica que torna o seu enfrentamento particularmente desafiador: na maioria das vezes, ele não dói no começo. Os primeiros sintomas são tão inespecíficos, tão parecidos com os de um estômago nervoso ou de uma gastrite comum, que passam meses, às vezes anos, sem que ninguém os investigue com profundidade.
O resultado disso é que mais de 60% dos casos no Brasil ainda são diagnosticados em estágios avançados, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), quando o tumor já cresceu além da parede do estômago ou se espalhou para outros órgãos. E o estágio em que a doença é encontrada muda tudo: muda as opções de tratamento, muda a complexidade da cirurgia, muda o prognóstico.
Este artigo existe para que você reconheça os sinais cedo, antes que eles se tornem urgentes.
O que é o câncer de estômago
O câncer gástrico é o tumor que se origina nas células da parede do estômago. O tipo mais comum é o adenocarcinoma, que representa cerca de 95% dos casos e se desenvolve a partir das células que revestem o interior do órgão. Outros tipos, como os tumores estromais gastrointestinais (GIST) e os linfomas gástricos, são menos frequentes e têm características e tratamentos distintos.
O Brasil está entre os países com maior incidência de câncer gástrico no mundo. O INCA estima mais de 21 mil novos casos por ano. Apesar de a incidência ter caído nas últimas décadas com a melhora das condições sanitárias e o controle da infecção pelo H. pylori, o câncer de estômago ainda representa um dos maiores desafios da oncologia cirúrgica no país.
Por que os sintomas são tão facilmente ignorados
O estômago é um órgão que convive com desconfortos cotidianos. Azia, má digestão, sensação de peso após as refeições, queimação. Esses sintomas são tão comuns na população geral que a maior parte das pessoas aprende a conviver com eles sem buscar investigação médica aprofundada.
O problema é que os primeiros sintomas do câncer gástrico são exatamente esses. Não existe, nos estágios iniciais, um sinal que grite. O tumor começa pequeno, cresce lentamente e só passa a comprometer funções do estômago quando já atingiu um tamanho ou uma extensão que torna o tratamento mais complexo.
Essa sobreposição entre sintomas banais e sintomas de alerta é o principal motivo pelo qual o diagnóstico precoce do câncer de estômago depende, mais do que de qualquer outro fator, da atenção médica diante de sintomas persistentes em pacientes com fatores de risco.
Os sintomas que merecem investigação
Nenhum sintoma isolado confirma ou descarta um câncer gástrico. Mas quando os sinais abaixo persistem por mais de duas a três semanas, especialmente em pessoas com fatores de risco, eles justificam uma investigação com endoscopia digestiva alta.
Queimação ou dor na parte superior do abdômen A dor epigástrica, aquela sensação de desconforto ou queimação na região central do abdômen, entre o umbigo e o peito, é um dos sintomas mais comuns e mais facilmente confundidos com gastrite ou refluxo. Quando ela persiste mesmo com o uso de antiácidos ou quando muda de padrão, precisa ser investigada.
Sensação de saciedade precoce Sentir-se cheio rapidamente, mesmo após comer pouca quantidade, pode indicar que o estômago perdeu capacidade de expansão normal, seja pela presença de um tumor na parede gástrica, seja por comprometimento da mobilidade do órgão.
Náuseas e vômitos frequentes Episódios recorrentes de náusea ou vômito sem uma causa aparente, especialmente quando o vômito contém restos alimentares de refeições antigas, podem indicar obstrução parcial na saída do estômago provocada por um tumor.
Dificuldade para engolir A disfagia, dificuldade de engolir sólidos ou líquidos, aparece quando o tumor está localizado na junção entre o esôfago e o estômago. É um sintoma que nunca deve ser ignorado ou postergado, independentemente da suspeita de câncer.
Perda de peso sem explicação A perda de peso não intencional, especialmente quando rápida e associada a outros sintomas digestivos, é um dos sinais que mais frequentemente aponta para doenças com comprometimento sistêmico. Em pessoas com mais de 50 anos e fatores de risco para câncer gástrico, ela deve acionar uma investigação imediata.
Sangue nas fezes ou fezes escurecidas O sangramento de um tumor gástrico nem sempre é visível a olho nu. Com frequência, ele se manifesta pelo escurecimento das fezes, que assumem uma coloração preta e alcatroada, chamada de melena. Esse é um sinal de alerta importante, que indica sangramento no trato digestivo alto e exige avaliação médica urgente.
Anemia sem causa identificada Assim como ocorre em outros tumores digestivos, o sangramento crônico e lento de um tumor gástrico pode provocar anemia por deficiência de ferro sem que o paciente perceba qualquer sangramento aparente. Cansaço progressivo, palidez e falta de ar em um adulto com anemia sem causa óbvia são indicação de investigação gastrointestinal.
Quem tem maior risco de desenvolver câncer de estômago
Conhecer os fatores de risco não significa que o câncer vai se desenvolver, mas indica quem deve ser monitorado com mais atenção e de forma mais sistemática.
Infecção pelo Helicobacter pylori A bactéria H. pylori é o principal fator de risco conhecido para o adenocarcinoma gástrico. Ela causa inflamação crônica da mucosa gástrica que, ao longo de anos, pode evoluir para lesões pré-malignas e, finalmente, para o câncer. A erradicação da bactéria, quando indicada, reduz o risco, mas não o elimina completamente em pessoas com lesões já estabelecidas.
Gastrite atrófica e metaplasia intestinal São lesões da mucosa gástrica consideradas pré-malignas, identificadas pela endoscopia e confirmadas pela biópsia. Pacientes com essas condições precisam de acompanhamento endoscópico regular, com intervalos definidos pelo risco individual.
Histórico familiar Ter um parente de primeiro grau com câncer gástrico aumenta de duas a três vezes o risco individual. Síndromes hereditárias específicas, como o câncer gástrico difuso hereditário, associado a mutações no gene CDH1, aumentam o risco de forma muito mais expressiva e exigem vigilância intensiva ou intervenção preventiva.
Alimentação e estilo de vida Dietas ricas em alimentos defumados, embutidos, conservas com alto teor de sal e pobres em frutas e vegetais frescos estão associadas ao aumento do risco. O tabagismo é outro fator independente para o desenvolvimento do câncer gástrico.
Cirurgias gástricas anteriores Pacientes submetidos a gastrectomias parciais por doenças benignas, como úlcera péptica, têm risco aumentado de desenvolver câncer no estômago remanescente, especialmente após 15 a 20 anos da cirurgia original.
Idade e sexo O câncer de estômago é mais frequente em homens e tem incidência crescente a partir dos 50 anos, com pico de diagnóstico entre os 60 e 70 anos.
O que acontece quando o diagnóstico é feito precocemente
Quando o câncer gástrico é identificado ainda confinado à mucosa ou à submucosa do estômago, sem comprometimento de linfonodos ou de órgãos vizinhos, o tratamento pode ser realizado com procedimentos menos extensos e os resultados são significativamente melhores.
Em tumores no estágio I, a taxa de sobrevida em cinco anos supera 90%. Em tumores diagnosticados no estágio IV, com metástases a distância, essa taxa cai para menos de 10%. Essa diferença não é pequena. É a diferença entre um tratamento com alta probabilidade de cura e um tratamento cujo objetivo passa a ser o controle da doença e a preservação da qualidade de vida.
O diagnóstico precoce do câncer gástrico é feito pela endoscopia digestiva alta, exame que permite visualizar diretamente a mucosa do esôfago, do estômago e do duodeno, identificar lesões suspeitas e coletar material para biópsia no mesmo procedimento. Em países como o Japão e a Coreia do Sul, onde programas de rastreamento endoscópico populacional foram implementados décadas atrás, a proporção de casos diagnosticados precocemente é muito superior à do Brasil, e os resultados de sobrevida são correspondentemente melhores.
O papel da cirurgia no tratamento do câncer gástrico
A cirurgia continua sendo o principal tratamento com intenção curativa no câncer de estômago. O procedimento padrão para tumores ressecáveis é a gastrectomia, que pode ser parcial, com remoção de parte do estômago, ou total, com remoção de todo o órgão, dependendo da localização e da extensão do tumor.
A linfadenectomia, remoção dos linfonodos ao redor do estômago, é parte obrigatória do procedimento cirúrgico com intenção curativa, tanto para o estadiamento correto da doença quanto para o controle local. A extensão dessa linfadenectomia segue critérios técnicos estabelecidos pelas diretrizes da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) e das principais sociedades internacionais de oncologia cirúrgica.
Em tumores localmente avançados, o tratamento pode ser precedido por quimioterapia para reduzir a extensão da doença antes da cirurgia, estratégia que aumenta as chances de ressecção completa em casos selecionados. O planejamento dessa sequência é feito em conjunto pelo cirurgião oncológico e pelo oncologista clínico, considerando as características individuais de cada caso.
Para entender com mais detalhes como funciona o processo completo, do diagnóstico à recuperação, leia: Como funciona o tratamento cirúrgico do câncer digestivo.
Quando e como investigar o câncer do estômago?
A recomendação geral para investigação endoscópica se aplica a qualquer pessoa com sintomas digestivos persistentes por mais de duas a três semanas, especialmente acima dos 40 anos. Para quem tem fatores de risco, a investigação deve ser ainda mais ativa e não esperar que os sintomas se intensifiquem.
A endoscopia digestiva alta é um exame seguro, bem tolerado e que pode ser realizado sob sedação. Quando os resultados indicam a necessidade de acompanhamento, a frequência é definida conforme o tipo de lesão encontrada e o risco individual do paciente.
O momento certo é antes que os sintomas gritem
O câncer de estômago costuma ser encontrado tarde porque as pessoas esperam que os sintomas sejam fortes antes de buscar ajuda. Mas esse tumor não avisa com intensidade no início. Ele avança em silêncio, e quando se manifesta de forma mais evidente, frequentemente já saiu dos estágios em que o tratamento é mais simples e os resultados são melhores.
Prestar atenção nos próprios sintomas, conhecer os fatores de risco e não postergar a investigação médica são as atitudes que mais influenciam o desfecho de um diagnóstico de câncer gástrico.
Se você tem sintomas digestivos persistentes, histórico familiar de câncer de estômago ou outros fatores de risco, agende uma consulta com o Dr. Eurico Campos em Curitiba para uma avaliação especializada e individualizada.
Leia também: Câncer colorretal: sinais de alerta que não devem ser ignorados.
Referências: Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa de Incidência de Câncer no Brasil. Disponível em: www.inca.gov.br Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO). Diretrizes para tratamento cirúrgico do câncer gástrico. Lordick F. et al. Gastric cancer: ESMO Clinical Practice Guideline for diagnosis, treatment and follow-up. Annals of Oncology, 2022. Japanese Gastric Cancer Association. Japanese Gastric Cancer Treatment Guidelines, 2021.
Dr. Eurico Cleto Ribeiro de Campos, CRM-PR 24347. Cirurgião oncológico com atuação em tumores do aparelho digestivo, sarcomas de partes moles, tumores ginecológicos e câncer de pele. Doutor em Oncologia pela Universidade de São Paulo. Membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO).