O câncer colorretal é o terceiro tipo de câncer mais frequente no Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA). São mais de 45 mil novos casos estimados por ano no país. Apesar desse número expressivo, ele carrega uma característica que poucos outros tipos de câncer têm: quando identificado precocemente, as chances de cura são altas, superiores a 90% nos estágios iniciais.
O problema é que a maioria dos casos ainda é diagnosticada tardiamente. E o principal motivo para isso não é a falta de sintomas. É que os sintomas existem, mas são ignorados, confundidos com condições mais comuns ou simplesmente não reconhecidos como sinais de alerta.
O que é o câncer colorretal?
O câncer colorretal é aquele que se desenvolve no intestino grosso, que inclui o cólon, e no reto. Na maior parte dos casos, ele começa a partir de pequenas lesões chamadas pólipos, que crescem na parede interna do intestino. Nem todo pólipo se transforma em câncer, mas alguns tipos têm essa capacidade, e por isso sua identificação e remoção precoce são parte central da estratégia de prevenção.
O desenvolvimento desse tipo de tumor é, em geral, lento. Leva anos para que um pólipo evolua para um câncer. Esse processo gradual é, ao mesmo tempo, o maior risco e a maior oportunidade: risco porque permite que a doença avance sem sintomas evidentes; oportunidade porque há uma janela longa para detecção e intervenção antes que o câncer se instale ou progrida.
Os sinais de alerta de câncer colorretal que merecem atenção
Nenhum dos sintomas abaixo, isoladamente, confirma um diagnóstico de câncer colorretal. Mas todos eles merecem avaliação médica, especialmente quando persistem por mais de duas ou três semanas ou quando aparecem sem uma causa conhecida.
Sangramento nas fezes ou sangue no vaso sanitário
É o sinal que mais frequentemente leva as pessoas ao médico, mas também o que mais frequentemente é atribuído a hemorroidas sem investigação adequada. Hemorroidas são muito comuns e de fato causam sangramento, mas o sangramento retal nunca deve ser assumido como benigno sem uma avaliação médica. O câncer colorretal e as hemorróidas podem coexistir, e um não exclui o outro.
O sangue pode aparecer misturado às fezes, como um fio vermelho ao redor delas ou apenas no papel higiênico. Em tumores localizados mais à direita do intestino, o sangramento pode não ser visível a olho nu, o que torna a investigação ainda mais dependente dos exames.
Alteração persistente no hábito intestinal
Mudanças no padrão intestinal que se mantêm por semanas merecem investigação. Isso inclui diarreia sem causa aparente, constipação que surgiu de forma diferente do habitual, sensação de que o intestino não esvaziou completamente após a evacuação, ou alternância entre períodos de diarreia e prisão de ventre.
Muitas pessoas convivem com o intestino irregular há tanto tempo que normalizam qualquer mudança. Mas quando o padrão muda de forma consistente e sem explicação, é importante buscar avaliação médica.
Fezes mais finas do que o habitual
A mudança no calibre das fezes, especialmente quando se tornam persistentemente mais finas, pode indicar que há algo obstruindo parcialmente o canal pelo qual elas passam. Esse sinal costuma ser pouco valorizado pelos pacientes, mas é clinicamente relevante e merece investigação.
Dor ou desconforto abdominal persistente
Cólicas, sensação de pressão ou dor abdominal que aparecem sem relação com a alimentação e se repetem com frequência são sintomas que não devem ser tratados apenas com antiespasmódicos sem uma investigação de causa. Em tumores mais avançados, essa dor pode se tornar mais intensa e localizada.
Perda de peso sem motivo aparente
A perda de peso não intencional, especialmente quando acontece de forma acelerada, é um dos sinais que mais frequentemente aponta para doenças com comprometimento sistêmico, incluindo o câncer. Perder peso sem ter mudado a alimentação ou a rotina de exercícios é um sinal que precisa de investigação médica, independentemente da suspeita de câncer.
Cansaço excessivo e anemia
Tumores localizados no cólon direito frequentemente sangram de forma lenta e constante, sem que o paciente perceba sangue nas fezes. Esse sangramento crônico provoca anemia por deficiência de ferro, que se manifesta como cansaço excessivo, palidez, falta de ar aos esforços e fraqueza. Quando um adulto apresenta anemia por deficiência de ferro sem uma causa óbvia, a investigação do trato gastrointestinal é obrigatória.
Quem tem maior risco de desenvolver câncer colorretal
Algumas condições aumentam o risco de desenvolver esse tipo de tumor e indicam a necessidade de rastreamento mais precoce ou mais frequente:
Histórico familiar: ter um parente de primeiro grau (pai, mãe, irmão ou filho) com câncer colorretal aumenta o risco de forma significativa. Ter dois ou mais parentes afetados ou um parente diagnosticado antes dos 60 anos indica rastreamento mais precoce, geralmente a partir dos 40 anos ou dez anos antes da idade do diagnóstico do familiar.
Síndromes hereditárias: condições como a Polipose Adenomatosa Familiar (PAF) e a Síndrome de Lynch aumentam substancialmente o risco e exigem protocolos de rastreamento específicos, iniciados na adolescência ou na idade adulta jovem.
Doença inflamatória intestinal: pacientes com retocolite ulcerativa ou doença de Crohn com comprometimento do intestino grosso têm risco aumentado e precisam de acompanhamento colonoscópico regular.
Histórico de pólipos: quem já teve pólipos removidos em colonoscopias anteriores precisa manter o acompanhamento regular, pois o risco de novos pólipos e de transformação maligna é maior.
Idade: o risco aumenta progressivamente a partir dos 45 anos, o que torna essa a idade de início recomendada para o rastreamento na população geral sem fatores de risco específicos.
Estilo de vida: sedentarismo, alimentação pobre em fibras e rica em carnes processadas, obesidade, tabagismo e consumo de álcool são fatores que contribuem para o aumento do risco.
Por que o diagnóstico do câncer colorretal precoce muda tudo?
A diferença entre um diagnóstico no estágio I e um diagnóstico no estágio IV do câncer colorretal é enorme, tanto em termos de opções de tratamento quanto de prognóstico. No estágio inicial, a cirurgia frequentemente é o único tratamento necessário, com taxa de cura que supera os 90%. Nos estágios avançados, com comprometimento de outros órgãos, o tratamento se torna mais complexo, mais longo e os resultados mais variáveis.
A colonoscopia continua sendo o exame mais eficaz para rastreamento e diagnóstico do câncer colorretal. Ela permite visualizar diretamente a mucosa intestinal, identificar e remover pólipos durante o mesmo procedimento e coletar material para biópsia quando necessário. Outros exames, como o teste de sangue oculto nas fezes e a colonoscopia virtual, têm papel no rastreamento inicial em populações específicas, mas a colonoscopia convencional permanece como padrão para a investigação diagnóstica.
Leia Mais: Como funciona o tratamento cirúrgico do câncer digestivo?
Quando procurar um cirurgião oncológico
Diante de qualquer um dos sinais descritos neste artigo, o primeiro passo é consultar um médico para investigação. Se os exames indicarem a presença de um pólipo de alto risco ou de um tumor, a avaliação com um cirurgião oncológico especializado em tumores do aparelho digestivo passa a ser fundamental para o planejamento do tratamento.
A experiência do cirurgião com tumores colorretais influencia diretamente a qualidade da ressecção cirúrgica, a preservação das funções intestinais quando possível e a tomada de decisão nas situações mais complexas, como tumores localmente avançados ou casos que envolvem estruturas vizinhas ao intestino.
Para entender como funciona o tratamento cirúrgico do câncer no aparelho digestivo, do diagnóstico até a recuperação, leia também: Como funciona o tratamento cirúrgico do câncer digestivo.
Não ignore o que o seu corpo está dizendo
Os sinais de alerta do câncer colorretal raramente aparecem em conjunto e raramente são dramáticos no início. Um sangramento ocasional, um cansaço que parece do estresse, uma mudança no intestino que se atribui à alimentação. Cada um desses sintomas, isolado, parece pequeno. Mas quando persistem, merecem ser investigados.
Procurar um médico diante de sintomas persistentes não é exagero. É o que pode fazer diferença entre um diagnóstico precoce, com tratamento mais simples e maior chance de cura, e um diagnóstico tardio, quando a doença já avançou.
Se você está com algum dos sintomas descritos aqui, ou se tem histórico familiar de câncer colorretal e ainda não começou o rastreamento, agende uma consulta com o Dr. Eurico Campos em Curitiba e tenha uma avaliação especializada com base no seu histórico e nas suas necessidades individuais.
Referências: Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa de Incidência de Câncer no Brasil. Disponível em: www.inca.gov.br Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Diretrizes para rastreamento do câncer colorretal. American Cancer Society. Colorectal Cancer Facts and Figures 2023-2025.
Dr. Eurico Cleto Ribeiro de Campos, CRM-PR 24347. Cirurgião oncológico com atuação em tumores do aparelho digestivo, sarcomas de partes moles, tumores ginecológicos e câncer de pele. Doutor em Oncologia pela Universidade de São Paulo. Membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO).